Depois de dois primeiros artigos mais teóricos, e sem aplicação prática imediata, vamos hoje ver os diversos elementos que constituem uma carta militar, alguns dos quais aparecem em qualquer mapa digno desse nome. Vamos utilizar uma carta da Série M888, à escala 1\25 000, as mais utilizadas, como já vimos.
Devo dizer que, em muitas situações, a representação do terreno, sem conhecer a informação que consta nas margens da folha da carta, serve de muito pouco. Como tal, façam bom proveito!
Infelizmente, os meus conhecimentos de digitalização e tratamento de imagens, assim como as limitações técnicas inerentes á publicação num forum, tornam por vezes as imagens demasiado pequenas e/ou pouco nítidas, dificultando a visualização e leitura. Podem sempre clicar em cima de uma imagem, com o botão direito, e escolher "Abrir imagem", sempre se vê um pouco melhor.
Mais uma vez, agradecemos ao Instituto Geográfico do Exército, que autorizou a cópia e publicação de excertos de uma carta, para melhor ilustrar este assunto. E se o Manual de Leitura de Cartas ajudou no artigo anterior, neste foi imprescindível.


Cópia reduzida de carta militar de Portugal, folha 143 da Série M888, edição do Instituto Geográfico do Exército.

Imagem proveniente de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
Na zona superior direita, encontram-se vários elementos de identificação da carta. Temos, obviamente, o seu nome. Este é escolhido, normalmente, pela localidade (ou acidente geográfico) mais importante que é abrangida pela carta.
A seguir, uma informação muito importante: o número da folha. Este número é definido por uma grelha arbitrária, e cada carta tem o seu número, que é crescente de Oeste para Leste e de Norte para Sul (ou seja, no sentido da escrita). À sua esquerda e direita, aparecem os números de identificação das cartas de 1/50 000 e 1/250 000 onde a área da presente folha está incluída, É assim, fácil, encontrar as cartas de menor escala, que abrangem mais território, da zona pretendida.
Ao lado do número de folha, encontra-se um conjunto de informações, que se repetem no canto inferior direito, entre os quais, o número de série da carta, neste caso M888. Esta designação obedece a regras internacionais, e ultrapassa o âmbito destes artigos. Basta saber que, em Portugal, as cartas semelhantes em escala e tipo de informação, pertencem à mesma série.
Outro elemento deste conjunto é o número de edição, que nos diz a "idade" da carta, e o número de registo ISBN, presente em qualquer publicação.

Imagem proveniente de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
No canto superior esquerdo temos um esquema, que nos diz o número de referência das cartas adjacentes, da mesma série. É assim fácil saber qual a carta a usar a seguir, quando nos aproximamos dos limites da carta que estamos a usar (do lado esquerdo não tem nº de carta, pois é o mar).

Imagem proveniente de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
Ao centro, em baixo, aparece a escala da carta e a escala gráfica. Já vimos que estamos a trabalhar com uma carta 1/25 000, ou seja, uma medida da carta corresponde a 25 000 medidas iguais no terreno (considerando o terreno plano). Assim, temos, por exemplo, que 1cm na carta = 25 000cm no terreno = 250m = 0,25km.
Para melhor visualizar, temos a escala gráfica, que mostra a dimensão de 1km na carta, dividido ao meio (500m cada), e dividido em 10 partes (100m cada).
Podemos, por exemplo, marcar na borda de um papel a distância de 1km, e usar esse papel como uma régua, na carta, para medir distâncias.
Ou, ao contrário, marcar na borda de um papel, a distância entre dois pontos da carta, e comparando as marcas do papel com a escala gráfica, ter uma noção bastante próxima da distância entre os dois pontos.

Imagem proveniente de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
Temos também o tipo de projecção, que, em termos práticos e muito simplificado, se explica da seguinte forma: a superfície da Terra não é rigorosamente uma esfera, mas sim um sólido irregular. De modo a poder planificar e representar em desenho 2D a superfície, estabelece-se uma relação entre a superfície da Terra e um sólido regular, tão próximo da realidade quanto possível. O terreno é, então, projectado na superfície desse sólido, normalmente um cilindro, que pode então ser planificado mais facilmente e com menor erro que a superfície irregular original.
É a definição matemática deste sólido que é designado por datum, em conjunto com o ponto de origem da projecção.
Basta, para efeitos de utilização da carta, saber qual o datum com que esta foi projectada e desenhada, a restante teoria para aí chegar já ultrapassa os objectivos deste artigo. Este elemento é também IMPRESCINDÍVEL para quem necessite de calibrar uma carta digitalizada, para operar um programa de GPS.
O sistema de referência, que se encontra abaixo da informação do datum, diz-nos como identificar e usar os elementos das quadrículas UTM (ver artigo anterior) e Gauss. Nesta série de cartas costumam aparecer estes dois sistemas. Vamos continuar a focar o UTM, mas o sistema de Gauss funciona basicamente do mesmo modo.
Como se pode ver na imagem, os elementos de cada sistema aparecem numa cor diferente, sendo que o UTM está a azul.
Conforme vimos no artigo anterior, as coordenadas UTM completas são compostas por um fuso e uma zona. Essa informação aparece no canto superior direito deste quadro, pelo que essa parte não é difícil de "calcular"... Neste caso, "29T".
Abaixo, encontramos a designação do quadrado de 100x100km, neste caso o "NF". E assim já temos a parte geral das coordenadas.
Agora, basta seguir as indicações dadas no artigo anterior, ou ler o que se encontra escrito no quadro, que mais não é que as instruções resumidas de como encontrar as coordenadas de um ponto.
Ou seja, cada carta contém, em si mesma, as instruções de como utilizar o sistema de coordenadas!



Imagens provenientes de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
Na zona inferior direita e esquerda temos a legenda, ou seja, uma lista de sinais convencionais.
Estes sinais servem para representar, na carta, certos elementos e pormenores do terreno, cuja representação na verdadeira forma, dimensão e posição seria impraticável.
As cores usadas na carta também obedecem a regras, de modo a mais facilmente se compreender a realidade do terreno. Assim temos:
Preto para toponímia (nomes das localidades, sítios, estradas, etc), construções, alguns caminhos, incluindo linhas-férreas, e divisões administrativas.
Vermelho para estradas principais, e nomes de marcos geodésicos (mais sobre marcos geodésicos no próximo artigo).
Castanho para curvas de nível, marcos geodésicos e pontos cotados
Azul para elementos aquáticos, como rios, linhas de água, lagos, pântanos, etc, assim como para linhas de alta tensão da rede eléctrica
Verde para vegetação.

Imagem proveniente de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
Por último, temos a escala de tangentes, algo que serve para descobrir o Norte. É normal pensar-se que o Norte é para onde aponta a agulha vermelha da bússola, e o “lado de cima” dos mapas.
Mas não é bem assim… numa carta militar como a que estamos a estudar, temos TRÊS Nortes!

Imagem proveniente de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
E, conforme a situação, podemos precisar de um ou outro, pelo que temos que saber o que significam, e como ir de um para o outro.
Temos então o Norte magnético, que é o que a bússola aponta. O Norte cartográfico, que é o “lado de cima” dos mapas, no caso destas cartas, é a direcção vertical, para cima, e á qual obedece a quadrícula de coordenadas. E por ultimo, temos o Norte geográfico (este vamos esquecer, serve para situações que não cabem nestes artigos).
O Norte cartográfico é um ponto convencionado, fixo, de modo a que todas as cartas apontem na mesma direcção.
A razão das cartas terem um Norte, e as bússolas outro, explica-se com algo que pode ser uma surpresa para muitos: o Norte magnético da Terra não está num ponto fixo, move-se ao longo do tempo.
Assim, a direcção que uma bússola aponta hoje, para norte, será diferente daqui a um ano, se se colocarem exactamente no mesmo local.
Como tal, cada carta inclui a informação de qual era a declinação magnética (a diferença entre o Norte magnético e o Norte cartográfico), no ano em que a carta foi desenhada. E a variação anual média é de -7’,3 (sete minutos e três décimas, no sentido contrário ao do movimento dos ponteiros do relógio).
Então, basta saber em que ano a carta foi desenhada (está na folha), a declinação magnética desse ano nessa folha (está na folha), e os anos que passaram, desde que a carta foi desenhada até ao momento em que se está a calcular a declinação magnética (não é uma conta díficil…).
A partir daí, multiplicar a variação média anual pelo número de anos passados. E somar (ou subtrair) esse resultado á declinação que existia no ano em que a carta foi desenhada. Temos assim a diferença entre o Norte cartográfico, e o Norte magnético, para este ano, ou seja, a diferença entre o Norte da bússola e o Norte da carta.

Imagem proveniente de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
Pode-se desenhar o Norte magnético na carta, com o auxilio da escala de tangentes. Basta, com uma régua, marcar uma linha desde o ponto P, inscrito na margem de baixo da carta, até à escala, no topo, com a inclinação que tiver resultado dos cálculos anteriores. A partir daqui, podemos orientar essa linha com o Norte de uma (boa) bússola, e a carta fica orientada pelo terreno.
(Uma boa bússola permite também o contrário: rodar a escala, em relação à agulha, pelo valor dos cálculos, e assim esta passa a marcar o Norte cartográfico. Escusamos de andar a riscar a carta...)

Imagem proveniente de carta militar de Portugal, edição do Instituto Geográfico do Exército.
Como se pode ver neste canto da carta, temos, ao longo das margens, várias escalas para medir coordenadas: no exterior, a preto e branco, as coordenadas angulares, os "graus". A castanho, as coordenadas do sistema Gauss, e a azul as UTM. A grelha a azul, em toda a área do desenho, é a quilométrica, do sistema UTM, o que facilita bastante a leitura de coordenadas neste sistema, assim como o cálculo de distâncias.
Agradecimentos:
Instituto Geográfico do Exército (IGeoE)
Membro MariaMig, que gentilmente colaborou no tratamento das imagens
Bibliografia: Manual de Leitura de Cartas, edição do IGeoE, que pode ser adquirido AQUI
Artigo(s) anterior(es):
I - Introdução, pode ser lido AQUI
II - Sistemas de coordenadas, pode ser lido AQUI
Próximos artigos:
IV - Leitura e utilização de cartas e mapas, pode ser lido AQUI

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